>Preposições – Valores

>Valor das várias relações estabelecidas pelas preposições
(Luiz Antonio Sacconi* )

A
Além de a preposição “a” introduzir o objeto indireto, o complemento nominal e o adjunto adverbial, pode indicar estas relações:
1) causa ou motivo: morrer à fome; acordar aos gritos das crianças; voltar a pedido dos amigos.

2) conformidade: puxar ao pai; escrever ao modo clássico; sair à mãe; bife à milanesa; jogar à Telê Santana.

3) destino (em correlação com a preposição de): de Santos a Guarujá; daqui a Salvador.

Observação:
Cumpre não confundi-la com a palavra denotativa de inclusão: até eu acreditei nele. A preposição pede pronome oblíquo; a palavra denotativa exige pronome reto: ele chegou até a mim e disse tudo.

Com
A preposição “com” introduz objeto indireto, complemento nominal, ad¬junto adverbial e indica estas relações:
1) causa: assustar-se com o trovão; ficar pobre com a inflação.
2) companhia: ir ao cinema com alguém; regressar com amigos.
3) concessão: com mais de 80 anos, ainda tem planos para o futuro; com ser imperfeito, o homem constrói máquinas perfeitas.
4) instrumento: abrir a porta com a chave, matar alguém com as mãos.
5) matéria: vinho se faz com uva.
6) modo: andar com cuidado; tratar com carinho.
7) oposição: jogar com (= contra) os ingleses.
8) referência: com sua irmã aconteceu diferente; comigo sempre e assim.
9) simultaneidade (que pode ser vista como de tempo): o povo canta, com os soldados, o Hino Nacional; com o tempo os frutos amadurecem; hoje, em todas as atividades a mulher concorre com o homem.

Contra
A preposição “contra” introduz objeto indireto ou adjunto adverbial e indica estas relações:

1) oposição: jogar contra os ingleses; lançar uma pedra contra alguém; remar contra a maré; depor contra alguém; ser contra o governo.
2) direção: olhar contra o sol.
3) proximidade ou contigüidade: apertar alguém contra o peito; cingir contra o coração a bandeira.

De
A preposição “de” introduz objeto indireto, complemento nominal, agente da passiva, adjunto adnominal, adjunto adverbial e indica estas relações:
1) assunto: falar de futebol.
2) causa: morrer de fome; tremer de medo; chorar de saudade.
3) conteúdo: xícara de café; maço de cigarros.
4) definição: homem de bom-senso; pessoa de coragem.
5) dimensão: prédio de dois andares; sala de vinte metros quadrados.
6) fim: dar-lhe algo de beber; automóvel de passeio.
7) instrumento ou meio: apanhar de chicote; briga de faca, brincar de mão, viajar de avião, viver de ilusões.
8) lugar (que compreende a relação de origem): vir de Madri; descender de alemães; ver de perto.
9) matéria: corrente de ouro; chapéu de palha; material feito de plástico.
10) medida ou extensão: régua de 30cm, rua de 20km.
11) modo: olhar alguém de frente, ficar de pé.
12) posse: casa de Luís, olhar de Maísa.
13) preço: caderno de um real.
14) qualidade: vender artigo de primeira.
15) semelhança ou comparação: olhos de gata, atitudes de imbecil.
16) tempo: dormir de dia, estudar de tarde, perambular de noite; de pequeni¬no é que se torce o pepino.

Desde

A preposição “desde” introduz adjunto adverbial e indica estas relações:
1) lugar: dormir desde lá até cá.
2) tempo: desde ontem estou assim.
Não use desde de: desde de 1945 isso não acontece por aqui.

Em

A preposição “em” introduz objeto indireto e adjunto adverbial e indica estas relações:
1) estado ou qualidade: ferro em brasa; televisor em cores; foto em branco e preto; votos em branco.
2) fim: vir em socorro; pedir em casamento.
3) forma ou semelhança: juntar as mãos em conchas.
4) limitação: em Matemática nunca foi bom aluno.
5) lugar ficar em casa: o jantar está na mesa.
6) meio: pagar em cheque; indenizar em ações.
7) modo: ir em turma, em bando, em pessoa; escrever em francês.
8) preço: avaliar a casa em milhares de reais.
9) sucessão: de grão em grão; de porta em porta.
10) tempo: fazer a viagem em quatro horas; o fogo destruiu o edifício em minutos, no ano 2000.
11) transformação ou alteração: mudar a água em vinho, transformar reais em dólares.

Entre

A preposição “entre” introduz adjunto adverbial e indica estas relações:
1) lugar: os Pireneus estão entre a França e a Espanha; ficar entre os aprovados.
2) meio social: entre os índios se age dessa forma.
3) reciprocidade: entre mim e ela sempre houve harmonia; entre nós há paz.

Para

A preposição “para” introduz complemento nominal e adjunto adverbial e pode indicar estas relações:

1) conseqüência: estar muito alegre para preocupar-se com mesquinharias; ser bastante inteligente para não cair em esparrela.
2) fim: nascer para o trabalho; vir para ficar; chegar para a conferência.
3) lugar: ir para Madri; apontar o dedo para o céu.

Observação: dá idéia de estada permanente ou definitiva, ao contrário da preposição a, que exprime breve regresso; de fato, vamos para o céu, para o inferno, etc., e não ao céu, ao inferno, porque de tais lugares não há regresso.
4) proporção: as baleias estão para os peixes assim como nós estamos para as galinhas.
5) referência: para mim, ela está mentindo.
6) tempo: ter água para dois dias apenas; para o ano irei a Salvador; lá para o final de dezembro viajaremos.

Perante

A preposição “perante” introduz adjunto adverbial e indica a relação de lugar (posição em frente); perante o juiz, negou o crime.
Não use perante a: perante a Deus, perante ao juiz, etc.

Por

A preposição “por” introduz objeto indireto, complemento nominal, agen¬te da passiva e adjunto adverbial e pode indicar estas relações:
1) causa: encontrar alguém por uma coincidência; foi preso por vadiagem, por isso é que a chamei.
2) conformidade: tocar pela partitura; copiar pelo original.
3) favor: morrer pela pátria; lutar pela liberdade; falar pelo réu.
4) lugar: ir por Bauru, morar por aqui.
5) medida: vender bolacha por quilo.
6) meio: ler pelo rascunho; ir por terra; levar pela mão; contar pelos dedos; enviar pelo Correio; mandar um recado por alguém.
7) modo: proceder à chamada de alunos por ordem alfabética; saber por alto o que aconteceu.
8) preço: comprar o livro por dois reais; vender a mercadoria pelo custo.
9) quantidade: chorar por três vezes; perder por O a 2.
10) substituição: deixar o certo pelo duvidoso; comprar gato por lebre; jurar por Deus; valer por cinco homens.
11) tempo: estarei lá pelo Natal; viver por muitos anos; brincar só pela manhã.

Sem

A preposição “sem” introduz adjunto adnominal e adjunto adverbial e indica a relação de ausência ou desacompanhamento (que pode ser vista como de modo): estar sem dinheiro; palavras sem sentido; sem o empréstimo, não construiremos a casa; não se vive sem oxigênio.

Sob

A preposição sob introduz adjunto adverbial e indica estas relações:
1) lugar (posição inferior): ficar sob o viaduto.
2) modo: sair sob pretexto não convincente.
3) tempo: houve muito progresso no Brasil sob D. Pedro II.

Sobre

A preposição “sobre” introduz adjunto adverbial e indica estas relações:
1) assunto: conversar sobre política; falar sobre futebol.
2) direção: ir sobre o adversário.
3) excesso: sobre ser ignorante, era presunçoso.
4) lugar (posição superior): o avião caiu sobre uma lavoura de arroz; flutuar sobre as ondas.

Trás

No português contemporâneo não se usa senão nas locuções adverbiais “para trás” e “por trás” (ficar para trás, chegar por trás) e na locução prepositiva por trás de (ficar por trás do muro).

Observações gerais:

1) Na língua popular, é comum o emprego da preposição “para” em substituição à preposição “a”. Ex.:

Ela disse isso para mim ainda ontem. (Na língua culta, prefere-se: Ela me disse isso ainda ontem. Ou: Ela disse isso a mim ainda ontem.)
Dei o dinheiro para ele e saí. (Na língua culta, prefere-se: Dei-lhe o dinheiro e saí. Ou: Dei o dinheiro a ele e saí.)

De fato, quem diz, diz alguma coisa a alguém; quem dá, dá alguma coisa a alguém. O emprego dessa preposição confere mais elegância à construção.

2) É a preposição “a”, e não “de”, que indica a repetição de um fato, em determinado dia da semana. Ex. Aos domingos vou à missa. (E não: De domingo)
Não há expediente às segundas-feiras. (E não: de segunda-feira)

3) Em construções do tipo “Nada tenho a declarar”, “Você tem muitas explicações a dar”, convém substituir a preposição “a” pelo pronome “que”: “Nada tenho que declarar”, “Você tem muitas explicações que dar”.

4) Muitas vezes, numa locução, a preposição “a” pode ser trocada por outra, sem que isso acarrete prejuízo de construção ou de significado. Eis alguns exemplos: à/com exceção de, a/ em meu ver, a/com muito custo, em frente a/de, rente a/com, à/na falta de, a/em favor de, em torno a/de, junto a/com/de.

5) Usa-se indiferentemente à/na página. Ex.: A notícia está à/na página 28 do jornal.
Usa-se ainda a páginas, mas não as páginas ou às páginas. Ex.: A notícia está a páginas 28 do jornal.

6) A preposição “de” é facultativa nas denominações de logradouros públicos, casas co¬merciais, etc. Ex.: Rua Consolação/da Consolação, Casa Três irmãos/dos Três irmãos, Rua de Tiradentes /Tiradentes, Magazine da Luísa/Luísa.

Nesse caso, vem geralmente contraída com o artigo. A tendência é, no português contemporâneo, a omissão da preposição ou da contração.

7) Com o verbo ter, usa-se “de” ou “que”, havendo idéia de obrigatoriedade ou necessidade, mas há os que preferem usar apenas a primeira. Ex.: Tenho de/que viajar amanhã sem falta.
Temos de/que terminar isto ainda hoje.

É discutível, entretanto, a classificação do “que” nesse caso. Do nosso ponto de vista, não se trata de preposição, mas de pronome relativo.

8) A preposição “de” forma inúmeras locuções adverbiais: de afogadilho, de mão beijada, de cabo a rabo, de joelhos, de pé, de férias, de bruços, etc. Usa-se indiferentemente: de/em pé, de/em férias.

9) Não há propriedade no uso da preposição “em” entre os verbos ser, estar ou ir e numeral. Exemplos: Em casa somos dez. (E não: somos em dez.)
Estávamos cinco no automóvel. (E não: em cinco.)
Fomos quatro ao baile. (E não: em quatro.)

10) O uso da preposição “em” com verbos ou expressões de movimento caracteriza brasi¬leirismo: chegar em casa, ir no supermercado, voltar na escola, levar as crianças na praia, dar um pulo na farmácia, etc.

11) Das preposições “por” e “per”, só a primeira se conservou inteiramente no português contemporâneo. A preposição por só aparece atualmente nas locuções “de per si” e “de permeio”, além de ser combinada com o artigo definido ou com o pronome demonstrativo “o”: pelo, pela, pelos, pelas.
Aparece, ainda, nas palavras percentagem e percentual, formas variantes de porcentagem e porcentual.

* in Nossa Gramática – Teoria e Prática, Editora Atual, 1994

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